
Da minha janela vejo muitas janelas, mas com aquele quê de monotonia... Idênticas! E meu olhar escolheu a mais distante. Talvez pensando nos sons, que nunca ouvi, do sino de vento que por ela transparecia. Diferente de todos os que já tinha visto, o sino possuía só um pêndulo. Na ponta, o que empurrava o som era um leque em formato de folha... quem sabe coração? Atrás do vidro, parecia não ter pés. Flutuava! No entanto estava preso por alguma coisa que meus olhos não alcançavam. Mesmo com o vidro abaixado podia vê-lo entre a cortina e a janela. Se bem que parado, estagnado pela falta de ar.
Na mesma direção, outras janelas. Não queria outras, só aquela. Quem se esconderia atrás dela? Que tipo de alma?Nenhuma. A cortina é a alma da janela? Alma feita de organza? Tão fina e delicada!... Quando um pequeno vão se abre ela escapa, enroscada no pêndulo, acena! Longe, muito longe de mim. Só conseguia sentir nos olhos a sua maciez. Impossível tocar. Não sei dizer se gosto mais da janela ou do sino protegido pela alma de pano.
Assim que o dia amanhecia “seu som” me chamava, mesmo distante. Cada um em sua janela... conversávamos. Às vezes o vidro parecia sujo. Escondia o que realmente existia por detrás dele. Eu estava cheia de verdades... Ele?... Aos poucos fomos nos conhecendo e nossos desejos e segredos afloraram. E os sonhos... ainda que sonhos, com um fio de realidade. No começo tudo ia devagar, era preciso estabelecer confiança. E nunca exigimos nada um do outro, contamos com a naturalidade. Cobranças? Ali não cabiam.
Agora o meu dia não era mais o mesmo. Juntos cumpríamos a tarefa de viver, cada um na sua realidade, cada um na sua janela. Tal qual pintores desenhávamos, nos vidros, palavras em branco e preto e depois acrescentávamos as cores que mais gostávamos. Sempre somando! Sempre sonhando! A “conversa” começava com tons pastéis e às vezes eu exagerava nas matizes. Culpa da minha ansiedade. Louca! Queria contar tudo, atropelava as palavras. Pacientemente, ele ouvia e eu percebia seus sorrisos. Assim, entre cores e formas harmoniosas, ele me conduzia a um grande mosaico.
Em alguns dias as pinceladas eram impressionistas, curtas e feitas à luz. Em outros, nevoeiros quase românticos. Também gostava das barrocas, cheias de significados. Mas as expressionistas eram as mais freqüentes. Juntos, montamos galerias. Embora as molduras fossem frias, cada obra tinha um pouco das cores quentes de nós dois.
Por vezes esquecíamos dos pincéis, o relógio parava e entrávamos noite adentro ouvindo músicas antigas. Com isso fui aceitando o que não conhecia, sofri pequenas modificações e me moldei aos sons.
No entanto a distância era inevitável. Haveria um modo de encurtá-la? Provável... Com medo de “quem sabe um dia”... sequer arrisquei perguntar.
Nas manhãs em que a janela teimava em ficar fechada, uma saudade dolorida encostava-se às minhas cortinas. Então, passava o dia refazendo as conversas acontecidas. Analisando cada cor. Talvez estivéssemos na fase azul, eu queria cor-de-rosa. Sabia que cada uma delas significava alguma coisa. Não só para mim, para ele também, pois toda vez que voltava, chegava “retocando” palavras já escritas.
E se resolvessem tirá-lo? Jogariam fora ou deixariam na porta para que alguém o levasse? Será que nunca pensou em fugir? Improvável!...
Ah! Se tivesse a sorte de encontrá-lo... Com certeza ele vai me reconhecer e concordar que eu o traga para minha janela. Mas está tão acostumado lá, pode sentir saudade da suavidade das cortinas de organza... as minhas são rústicas. Porém ele conhece cada fio dos meus desenhos, mesmo quando são abstratos. Será que vai se dar bem com as minhas ventanias? E se ao tentarmos nos misturar o mosaico ficar disforme? Pior se eu for só mais um desses esboços banais esquecidos em uma parede qualquer. Tantas janelas por aí...
Nada disso vai acontecer. Melhor aproveitar. Com sorte nossa obra poderá ser concluída em algum lugar do mundo.
Bom mesmo seria se um dia eu pudesse tocar no leque que arrasta os meus ventos.
Márcia Rodrigues
15.06.05
Uma cadela de família. Sempre alegando que as crianças me davam muito trabalho, consegui resistir a idéia de termos um cachorro em casa, mas com os filhos criados... foi inevitável. Depois de uma reunião familiar, quando decidimos a compra do tal bichinho, deixei claro que só teríamos um se todos aceitassem minhas condições, afinal eu sabia que os cuidados ficariam por minha conta: - o cachorro seria meu, só meu. - na verdade não seria um cachorro e sim uma cadela, por ser bem mais fácil de educar, pois não é deselegante a ponto de erguer a perna na hora do xixi, além do que, sendo do sexo feminino, a meu ver seria muito mais doce. - deveria ser de raça pequena, mas não muito pequena porque, “delicada” como sou, esmagaria a pobre no primeiro dia , mas só decidiríamos depois de fazermos uma pesquisa sobre o tamanho dos cocos. - a ração seria a melhor (dessas que fazem o cachorro não ter cheiro de cachorro e ainda melhoram o odor das “necessidades”) - o banho seria no pet shop, uma vez por semana (toda vida achei chique aquelas madames preocupadas com a higiene dos bichinhos) - os passeios matinais seriam por conta das crianças, um dia de cada um e mais, a “porcaria” deveria ser recolhida por eles também. - e o mais importante, quando entrasse no cio, nada de “cruzar”, ela nunca seria mãe. Um bando de filhotes sem poder tomar banho por três meses andando pela casa e sujando tudo? nem pensar... Depois de todas as condições aceitas, fomos ao canil. Logo de cara eu me apaixonei por uma cadela da “marca” poodle, branquinha e nanica. Mesmo o canil me garantido de que não cresceria, só o tempo confirmaria isso. Agora era contar com a sorte, pois conheço vários poodles que mais parecem pôneis. Com aquele pequeno ser, peludo e indefeso, no meu colo, pensei no dia em que saí da maternidade e na minha missão de mãe. Igualmente como fiz com os meus filhos, primeira coisa era batizá-la, tinha que criá-la como uma cachorra de família, educada e comportada. E o enxoval? Fomos direto ao pet shop. Como meu marido também era fascinado pela novidade, nem reclamou do valor das compras. Tão logo chegamos em casa, improvisei numa bacia a pia batismal e na presença de todos e de São Francisco de Assis, ela recebeu o nome de Mel. Com um jornal dobrado e a voz firme, logo comecei os primeiros ensinamentos, o xixi, sempre no mesmo local e sobre um jornal. Os anos correram e Mel, a minha cadela, nos seus Até que suportei bastante, foram sete anos e Mel não cruzou nenhuma vez, a não ser com as pernas das visitas, cobertorzinho ou onde conseguisse encostar. E mais uma vez, minha família conseguiu me convencer argumentando que ela era uma “mulher” e, no auge da sua beleza canina, estava nos últimos cios recomendados para emprenhar, tinha que cruzar. Dizem que a idade de um cachorro deve ser multiplicada por três, 3x7, 21, já era hora mesmo. Meu filho fez o papel de cúpido (ou alcoviteiro), arrumando o macho. Seria na casa dele, do futuro namorado, que ela passaria os dias mais “calientes” do seu cio. Peter era o nome do pretendente, pelo menos me pareceu educado, assim que o “acordo nupcial” foi estabelecido e, pensando em cortejar a minha menina, mandou de presente uma bolinha. Astuto! Mas não deixava de ser cachorro, sabe que uma mulher faz tudo por um mimo. Mas eu não me conformava. Que situação desagradável! A minha menina perderia a virgindade sob os olhos de uma pessoa desconhecida e ainda voltaria prenha. Pelo telefone falei com a provável “sogra”. Assim como o “filho”, ela me inspirou confiança e disse que eu poderia ligar todos os dias para saber da minha garotinha e que não me preocupasse, seriam alguns dias somente. Antes de entregá-la resolvi dar-lhe alguns conselhos, pedi que não se esquecesse dos meus ensinamentos, uma mulher que se preza tem que se dar o valor, nunca cacareje e nem muja, honre sua “cadelisse”, nada de ser fácil: dê minha filha, dê mesmo... com classe, mas não esqueça, nunca permita que seu ato seja testemunhado por terceiros, entre quatro paredes você pode tudo. Mais uma coisa, obedeça a dona da casa e seja educada. Com o coração aos pedaços, nem quis vê-la partindo. Não sei por que eu estava tão chocada, pensei nas vantagens, jamais teria que ensiná-la como usar um preservativo, além de economizar em pílulas e ginecologista. A cada ligação eu ficava mais feliz, Mel rosnava e não permitia que Peter se aproximasse dela, até dormiam juntos, mas... nada, nada de nada. Na manhã do quarto dia a quase sogra me ligou pedindo para que fossemos buscar a nossa mocinha, mocinha mesmo, pois na noite anterior, numa tentativa extrema, ela deixou os dois presos na lavanderia e ficou espiando. Mel não consentiu que o ato fosse consumado e fez do Peter um ser apavorado. Será que ela reclamou da bolinha e reivindicou outros presentes? Garota esperta essa. Quando a vi nos braços do meu filho, mais virgem do que nunca, senti que minha missão de mãe estava cumprida. Mel, além de seguir meus conselhos, provou a todos que era realmente uma cachorra de família. Mas... para me garantir, antes que aparecesse outro pretendente, mandei castrar a minha menina. Márcia Rodrigues 02.09.2007

Sufoco
Assim que entramos no boteco percebi a simplicidade do lugar. Com mesas rústicas e quase limpas não havia muito o que pedir, só que... cerveja, desde que gelada, é sempre a mesma, seja o ambiente simples ou sofisticado. Da cadeira eu via o grande freezer de porta transparente esnobando garrafas e latas suadas. Era o suficiente.
Ainda estávamos com a língua travada quando chegaram as primeiras garrafas. Ao redor da mesa, amigos de trabalho. Logo logo as línguas destravariam e todos os assuntos passariam a existir: futebol, mulher, homem, cinema, filosofia e até receitas. Sem falar naqueles que, inspirados por uma dose a mais, sempre relembram e até cantam velhos sambas.
Depois de namorar o colarinho branquinho e cremoso massageando o copo, vem o primeiro gole... A cada outro sinto, na garganta, o carinho do líquido fermentado. Ah!é como estar no deserto e encontrar um oásis. Um gole, dois, três, o copo mal seca e o garçom, sem trégua, renova a pedida. Mais uma, outra e mais uma e mais outra.
No rústico da mesa, várias garrafas amontoavam-se. Das cheias, a transpiração escorria pelo quase limpo. As vazias contrastavam com os copos que suavam gotas geladas.
Após o quinto copo não havia mais papo desinteressante, porém, a bexiga apertada guardava o líquido que não demorou a ser transformado. Meu olhar passeava pelo boteco e não achava indicação nenhuma de banheiro. Agora o trago no cigarro, sempre tão prazeroso entre um gole e outro, provocava enjôos. Tudo por um toalete, aquele xixi de alívio, de paz.
Com o bar cada vez mais lotado, nem sinal do garçom e nenhum de nós sabia onde era o banheiro. Já achando que não mais suportaria, levantei-me e deduzi que só poderia ficar no fim do balcão. Ai, que delícia, achei! Só de pensar que ficaria livre daquele aperto eu me sentia feliz, quase aliviada. Mas, ao entrar no corredor estreito... cinco mulheres e um só box. Se cada uma demorasse 5 minutos, seriam 25 no total, eu não dispunha de tanto tempo. Fora o que ainda gastaria retirando a calcinha e me agachando sem encostar em nada naquele ambiente de total desconforto. Pensava nisso quando vislumbrei, ao lado, a possível solução: o banheiro dos homens, sem fila, porta entreaberta, vazio. Não havia espaço para a timidez. Assim, seguindo meu impulso, entrei determinada.
Enquanto desabotoava a calça ouvia os risos das outras mulheres, elas que me perdoassem, mas não havia outra alternativa. O lugar era tão pequeno que eu não conseguia agachar sem bater a cabeça na porta. Sentar nem pensar, muito sujo. Nem tão sujo, respingado demais eu diria. Homens!
Num esforço extra-racional coloquei os pés quase no limite do vão que separava a porta do chão e fui descendo o corpo devagar. Sem perceber senti o alívio da bexiga esvaziando. A paz já reinava em mim quando uma batida forte na porta estancou o meu alívio.
_ E aí meu irmão, vai demorar muito?
Só faltava essa, um apressadinho. E ele insistia.
_ Como é “meu”?
Naquele instante eu tinha vontade de mandá-lo calar a boca, mas eu estava no lugar errado, embora na hora certa. Quanto mais ele falava, mais piorava a situação. Pensei em engrossar a voz, mas falar o quê? Melhor seria ficar calada e me concentrar. Aos poucos a calma voltou e terminei minha “tarefa”. Graças a Deus! Mas foi quase uma odisséia.
Novamente a batida na porta:
_ Ô meu! Como é que é?
Os risos não eram só femininos, percebi que mais homens esperavam para entrar. E agora? Que situação! Não sabia se segurava a calça, se me enxugava ou chorava.
E pra sair dali? Não tinha outro jeito, eu tinha que sair. Depois de me recompor, ajeitei os cabelos e com um sorriso largo abri a porta e saí imponente, resoluta, vitoriosa.
Um aplauso caloroso e um ÔOOOOOOO, era o que me esperava. Senti que um rubro fosco tomou conta do meu rosto, mas depois do primeiro passo ganhei um abraço e os parabéns de um deles, que num olhar rápido notei ser o mais velho de todos. Agradeci, desta vez com um sorriso meio amarelo e voltei para a mesa, onde mais um copo cheio me aguardava.
Márcia Rodrigues
23.01.2008
Enquanto beija-flores se atropelam brigando pelo néctar doce das plantas, um passarinho de peito verde rouba os poucos brotos do pé de arruda e é nesse cenário que começa a minha jornada de trabalho. Naquele dia, “Seu” José, o jardineiro, capinava o pomar escasso. Perto da horta, como se fosse um espantalho, sentada e de braços cruzados, Anunciata mostrava seus dentes novinhos achando graça não sei do que. Talvez por ter sob sua guarda o jardim e a horta, estivesse feliz pelo ajudante que raramente aparece. Do outro lado Maria relembra as tristes histórias que ouviu no programa de rádio e sofre, mas não para, dia e noite, embainha todos os tipos de panos com seus pontos de crochê, além de rezar dois “terços” por dia. Já Cida, em sua loucura solitária, gasta o piso do corredor andando sem parar, o que lhe é comum, às vezes canta, outras vezes para e reclama com a roseira a falta das flores e fica nisso o dia todo. Desde que chegou ali lhe deram a responsabilidade de “por” a mesa. Ou lhe foi imposta? Tão bem treinada... nem sabe ver horas, talvez saiba e não queira me contar, mas guiada pelo ponteiro menor é pontual, pouco antes de cada refeição, estica a toalha milimetricamente e “deita” os pratos e talheres. Diante da porta da capela, Celina gira as rodas de sua cadeira e tem o olhar perdido pela rua de pouco movimento. Sem se incomodar com nada, D. Maria Campos retira do varal a roupa ainda molhada e ignora os gritos da outra Maria que, por um instante, larga o bordado e como um sargento habilitado, critica a retirada dos pregadores. Totalmente alheia, Algonísia, remeda as companheiras e ri de tudo. Em meio a seus dedos escorre a cobertura de chocolate de um pedaço do bolo de cenoura que foi servido no café da manhã. Já passa das nove... e Seu Zé teima pelo jardim.
Assim a vida acontece no fundo do casarão. Indiferente a tudo o quarto da frente guardava a mais velha de todas, D. Lourdes, que, entre a vida e a morte, reclamava não ter ido ao enterro da mãe. Só depois de 50 anos é que se lembrou de chorar, deve estar caducando, também, 98 anos... Há alguns dias recebemos o aviso médico sobre a cessação completa e definitiva da vida dela. O que não acontecia, pois a velha lutava bravamente a favor da vida.
_ Márcia! Corre aqui!
Ao atravessar a casa, parecia não vencer os cômodos, o grito abafado da cozinheira parecia um pedido de socorro. Quando entrei no quarto vi a velha agonizando. Será que chegou a hora? Um frio estranho se misturava aos raios de sol que invadiam as frestas da janela e o anjo negro rondava a cama, em segundos um suspiro profundo calou a voz da pobre e sua camisola tremeu sobre o coração. Parou? Não, ela era tão forte, nenhuma doença lhe abatia, tal qual uma luz ela não se deixava apagar. Novo suspiro, e as flores que estampavam o tecido que cobria o seu corpo tentaram pular para fora, em vão, mais um suspiro, seus olhos entreabertos pararam. Pronto, acabou! No entanto, voltou a respirar. Enquanto Mara massageava o coração, corri para a sala, precisava alcançar o telefone, 192 _ resgate.
Naquele instante, mesmo não sentindo os meus pés, tentava fincá-los no chão. Como se quisesse demonstrar força, dava as informações e me sentia “toda razão”. Meu olhar se dividia, ora na porta do quarto, ora na do corredor do casarão. Com a morte ao meu lado pensava nas outras que estavam no fundo do quintal. Jamais deixaria que elas percebessem o meu medo. Mas a cada dado confirmado, a sombra da morte tentava me intimidar. Por quê? Ela não queria a mim. E se quisesse? Besteira...
Não tenho como lutar. Sorrateira! chega forte e em silêncio age rapidamente. Só que sou teimosa e desde o dia em que comecei ali, luto contra ela de todas as maneiras. A cada novo controle declaro guerra, seja no cardápio, no mapa da pressão arterial ou nas novas investidas contra os médicos acomodados do sistema de saúde. De volta ao quarto pedi a Mara que ficasse com as outras. Antes de sair, num gesto de carinho, ela tentou fechar os olhos da quase defunta, mas, eles insistiam em ficar abertos. Sobre a cabeceira da cama o anjo escuro ria de mim e vigiava a respiração ofegante da moribunda.
_ Pensa que me assusta? Só por que veio no meu primeiro mês de trabalho acha que vai me abater? Não entrego os pontos assim, cuido de vidas, não tenho medo e vou te afrontar e te afastar daqui o mais que eu puder.
E o resgate não chegava. Nisso senti um calafrio nas minhas costas, era ela que, batendo suas asas, assombrava o quarto e espiava pela janela. Certamente estava preocupada, sabia que os para- médicos se aliariam a mim. Cheia de coragem tinha que enfrentá-la e gritei em pensamento:
_ Agora me dá as costas? Ah! Está com medo! Acho pouco, nossa briga sempre será boa e mais, você que se prepare, vou te desafiar a cada dia.
Depois de uma hora chegaram alegando ter demorado por que a maca havia ficado presa num dos hospitais. Bah! Saúde pública!
Com frieza fizeram algumas perguntas, preencheram um formulário e verificaram a pressão sanguínea da morto-viva, já em retirada me informaram que iriam para o hospital mais próximo. Da janela da ambulância o anjo negro gargalhava me acenando.
_ Pode rir!
Como se fosse um até breve, respondi com um sorriso sarcástico.
Assim que passei o cadeado no portão, voltei ao fundo da casa e na maior naturalidade falei a todos que D. Lourdes tinha ido pro hospital.
Só às dez da noite ela foi vencida, quando fui informada ri e desabafei:
_ Viu como não foi fácil “dona morte”? Você que não volte aqui tão cedo, e quando voltar, posso até não te vencer, mas que vou te dar trabalho... Ah! vou!
Márcia Rodrigues

Tintim!
Completar bodas de prata hoje em dia é para um grupo de poucos. E eu faço parte desse seleto clube. Em dezembro fiz 25 anos de casada. Mas o que significa casamento? Ora essa, para mim é viver um grande amor, além de ter filhos com seu amado (esse era o meu maior sonho) e ser feliz para sempre. Quando me formei contadora de histórias aprendi que ao terminarmos um conto dizendo: “ e foram felizes para sempre...” , estamos dando ao ouvinte um fio de esperança. Ou uma corda para se enforcar?
Bem, celebrar o fato de estarmos juntos e dividindo nossas vidas por todo esse tempo... é o que interessava no momento. Desde o começo do ano tentei planejar, mas meu digníssimo companheiro, prático e econômico, dizia ser besteira qualquer tipo de comemoração. Mesmo assim pensei numa missa. Logo após receberia os convidados com bolo e champanhe. Simples e barato mas... me foi negado, porque isso implicaria em fazer vestido (adoro vestido de noivas, casaria uma vez por ano só pelo “modelito”), ainda alugar salão, decorar igreja, fazer convites... sem esquecer das benditas alianças com o fio de prata. Por falta de incentivo e grana, desisti. Muito brega esse negócio de aliancinha, vestidinho comportado, benção...
Depois decidi por um churrasco, roupas comuns num ambiente descontraído, só o custo da comida. No fundo eu fazia questão das alianças, entretanto... Churrasco? Ta maluca comemorar bodas de prata com churrasco? Foi o que ouvi. Uma droga mesmo! Tanto que me dediquei, pari, cozinhei, lavei, passei, agüentei todas as “buchas”, que não foram poucas. Só que carne em abundância não combina com bodas, acho que engordei demais. Caramba! se inventasse uma bacalhoada, aí que o bicho iria pegar mesmo.
Já no meio do ano comecei a entender que só eu fazia questão de comemorar esse malfadado casamento.
Mas eu não desistia da comemoração. Em grupo, nem pensar, quem sabe viajar? Uma coisinha de nada, algum lugar pelo interior, sossego, silêncio e muita transa. Transa? Talvez um hotel fazenda “pesque e pague”, a gente passaria a noite na beira do rio, claro que com a vara nas mãos. Até seria um tipo de comemoração, poderíamos competir quem pescaria mais. É, novamente riram de mim. O que eles queriam? Um final de semana em Poços de Caldas? Jamais! entre uma cidade senil e um pesqueiro, fico com os peixes, pois além de comemorarmos, traríamos comida pra casa. A ordem não era economizar? quer melhor do que isso? Haja freezer, abandonei a idéia.
Então planejei “a noitada”: jantar dançante, com troca de alianças e quem sabe uma esticadinha num motel? mas sobreveio nova objeção:
_ E os nossos filhos não vão participar? Não era você que queria tanto ter filhos?
Isso eu tive que ouvir, que coisa, tinha escolhido tudo “meia boca” e ele me vem com quatro bocas? não tinha jeito. Mesmo contrariada, continuei a buscar novas opções;


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